Sei que tenho demorado muito para escrever por aqui, mas é que estava faltando tempo mesmo. Talvez as coisas voltem ao normal agora. Ou não. Fato é que agora eu vou escrever. Ainda não vai ser a tão aguardada série anteriormente anunciada, mas uma cópia de um outro post.

Eu não assisto muita televisão. Basicamente só nos fins de semana, quando estou na casa de minha namorada e, mesmo assim, apenas jornais e um ou outro filme.

Pois bem, fiquei sabendo que semana passada rolou um cárcere privado numa cidadezinha de São Paulo. Digo cárcere privado porque aquilo não foi sequestro (sem tremas, como determina a lei). O crime de sequestro, na verdade, não existe. O que existe é a extorsão mediante sequestro, ou seja, uma extorsão qualificada. A imprensa, como todo mundo sabe, não detém conhecimentos de nomenclatura técnica em nenhuma área do conhecimento (se não sabem nem jornalismo vão saber o quê?). Ah, e a extorsão mediante sequestro exige um pedido de contra-prestação em troca da restauração da liberdade ofendida (um resgate, entende?), o que não ocorreu.

O fato é que aconteceu um crime contra a liberdade de alguém semana passada. E esse alguém que teve sua liberdade constrangida morreu. Nenhum problema até aqui, salvo a massiva aporrinhação por parte da mídia, que, pelo que ouvi dizer, deram cobertura quase que 24hs ininterruptas por dia para o crime insignificante.

O que realmente me incomodou no esquema todo é o que ocorreu depois do desfecho, da mesma forma que ocorreu no caso da Menina Voadora Nardoni. Dezenas, centenas, milhares de pessoas se comovendo com o acontecido. Soube que mais de 20.000 (isso mesmo, vinte mil) pessoas compareceram ao velório. Gente que nem conhecia a defunta ou qualquer parente dela. Tinha gente até de outras cidades que foram lá só para prestar homenagem. Em resumo, um bando de babacas curiosos e death eaters (algo como comedores de morte. Ou comensais da morte, como nos livros de Harry Potter em nossa língua).

Não, não me venha com essa conversinha “morfina de bovino” de que o País inteiro se comoveu com a história e que todos entendem como os parentes se sentem e que é uma tragédia como nunca se ouviu falar, pois foi o sequestro mais longo da história e todos esses blablablás. Além de a culpa ser da polícia, não esqueçamos disso.

Nem foi um sequestro, quanto mais o mais longo da história. Já expliquei acima os motivos de não ser sequestro. Se minha memória não me trai, houve no Brasil um sequestro (de verdade) que durou alguns meses, então esse, que durou uma semana, não poderia ser mesmo. O País inteiro não ficou comovido coisa nenhuma, pois eu não me comovi e conheço algumas outras pessoas que também não.

Ao contrário, eu achei muito chata a história toda e fico com pena do mané “sequestrador”, porque só um cara muito mané mesmo para arriscar acabar com a própria vida por causa de qualquer uma. Qualquer uma sim. Não é porque morreu que virou santa. É muita falta de amor próprio ficar deprimido e revoltado porque tomou um fora. É mais que digno de pena, é ridículo.

Também não acho que a culpa foi da polícia. O único erro da polícia foi não ter invadido antes, quando só havia uma vítima potencial. O erro foi ter deixado a outra garota voltar para dentro do cárcere.

“Ah, mas se eles tivessem invadido antes ela poderia ter morrido do mesmo jeito. O melhor seria esperar até o cara desistir.”

O cara é um babaca que levou um pé na bunda e está, como todo mané, desesperado por causa disso. Já tinha avisado que estava lá para matar a guria. Invadir antes era a garantia de que só ela iria morrer e que ele seria preso antes de cometer suicídio. É frio, mas é assim que a vida é e era assim que a polícia deveria ter pensado e agido. Invadir e prender o cara. Se a guria morrer, que pena, já tava marcada mesmo. Teria evitado que a outra tapada se machucasse também.

Mas tudo bem. Essa parte é realmente irrelevante, pois o que realmente incomoda é ver o tanto que o povo não tem mais o que fazer e o quanto o povo gosta de um freakshow gratuito. Não fosse dessa forma, o BBB não faria tanto sucesso. Que graça as pessoas vêem em frequentar um velório de alguém que não conhecem? Como pode alguém ser tão carente a ponto de se emocionar com a dor alheia e “se identificar” com a família da vítima?

Alô! Sou só eu, ou mais alguém repensa os valores da sociedade quando uma pessoa normal tem mais de 20.000 pessoas em seu velório? E a exposição de pessoas que não têm nada a ver com o esquema, como aqueles que receberam os órgãos da falecida? A mãe da menina diz que gostaria de conhecer os receptores e todo mundo já acha que os mesmo têm a obrigação de ir lá? Obrigação moral? Para agradecer?

Se a mãe da defunta não doasse os órgãos um anônimo certamente o faria (afinal morre muita gente no País hoje em dia…) e talvez os receptores nem chegariam a saber quem eram. Achei incrível a cara de assustado do pai de um garoto (ou garota, sei lá…) quando se viu sendo entrevistado pelos repórteres da Rede Glóbulo e se achando numa saia-justa moral por ser quase obrigado a responder que iria visitar. O cara parecia ter entendido que a visita posterior era conditio sine qua non para a doação. Um absurdo.

É isso. Não gosto da mídia e não gosto de gente babaca que ameaça a vida de outras pessoas por motivos fúteis como um par de chifres ou um pé na bunda. Gosto menos ainda de parasitas da dor alheia. Não vou ao velório e enterro dos meus próprios parentes, quanto mais de uma pessoa totalmente desconhecida. Apenas imbecis desocupados frequentam velórios de desconhecidos.